Mais da metade dos professores brasileiros dizem já usar inteligência artificial em suas aulas, para planejar atividades, resumir conteúdos ou dar notas aos estudantes. O Brasil é um dos dez países em que mais docentes relataram utilizar a nova tecnologia entre os 53 que participaram da Teaching and Learning International Survey (Talis), pesquisa realizada pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Os dados, coletados em 2024 com professores do ensino fundamental, foram divulgados nesta segunda-feira, 6, em Paris. A Talis é a maior pesquisa mundial sobre professores.
Enquanto a utilização da IA, em geral, foi relatada por 36% dos professores nos países desenvolvidos que fazem parte da OCDE, no Brasil o índice é de 56,1% – mais alto do que nos Estados Unidos, na Coreia e em todos os europeus que participaram da pesquisa.

Cingapura e Emirados Árabes ficaram no topo do ranking, com 74,9% e 75% dos seus professores afirmando que usaram IA no último ano. A lista dos dez primeiros em uso da tecnologia tem ainda outras nações em desenvolvimento, como Vietnã, Uzbequistão, Azerbaijão e Cazaquistão.
A rápida adoção da IA pelos decentes é considerada “surpreendente” pelo diretor de educação da OCDE, Andreas Schleicher, considerando que o Chat GPT foi lançado em 2022. “É uma mudança significativa que, na maioria dos casos, ocorreu sem políticas formais ou treinamento consistente.”
Os resultados do Brasil dão a entender justamente que os professores não estão necessariamente preparados para esse uso: 64% dizem que não têm habilidades ou conhecimento para usar IA e 60%, que a escola não possui estrutura para essa tecnologia.
Os professores brasileiros afirmaram que usaram no último ano a inteligência artificial para:
- Criar planos de aula e atividades (77,4%)
- Aprender algo melhor ou resumir um conteúdo (62,6%)
- Avaliar, dar notas ou corrigir trabalho dos estudantes (35,6%)
- Ajustar automaticamente a dificuldade do material de às necessidades de aprendizagem dos estudantes (64,2%)
- Ajudar os estudantes a praticar novas habilidades em cenários da vida real (48,7%)
- Ajudar estudantes com necessidades especiais (53,7%)
- Criar texto para feedback aos estudantes ou comunicações aos pais (39,4%)
A TALIS é realizada desde 2008 pela OCDE ouvindo professores, em sua maioria, do fundamental 2 (6º ao 9º ano). Essa é a primeira vez que são feitas questões sobre inteligência artificial; a última pesquisa havia sido realizada em 2018. Cerca de 280 mil docentes participaram da pesquisa.
Em um dos materiais que fazem parte da TALIS, Schleicher, afirma que a “rápida evolução levanta muitas questionamentos, incluindo: que softwares os professores estão usando? Como saber se a IA não comete erros?”
Segundo ele, enquanto os críticos argumentam que a velocidade com que a IA vem sendo adotada representa um risco, com empresas de tecnologia concorrendo por um mercado com pouca supervisão, por outro lado, há quem diga que ela é a solução para várias questões que os professores enfrentam diariamente, como a correção de provas e trabalhos. “As escolas precisam garantir que a IA seja aplicada de forma eficaz e em contextos onde realmente aprimora o aprendizado”, diz Schleicher.
Os brasileiros parecem se preocupar menos do que a média dos profissionais de outros países com a possibilidade de os estudantes usarem a IA para fazer os trabalho por eles. Ao serem questionados sobre os desafios da tecnologia, 68% dos docentes do Brasil falaram da eventual falsificação das atividades, enquanto entre países da OCDE, o índice médio foi de 72%. Em países como Cingapura, Nova Zelândia e Austrália, a preocupação com o plágio atinge mais de 85% dos professores.
No Brasil, só pouco mais de 17% afirmam que a escola não permite o uso da inteligência artificial. E 38% discordam do uso de IA nas aulas – entre países da União Europeia essa rejeição é de 56%.
A pesquisa traz ainda considerações dos professores sobre sua satisfação com o trabalho, motivos de estresse e percepção de reconhecimento da profissão. No Brasil, só 14% dos professores se dizem valorizados pela sociedade – fator considerado crucial tanto para atrair talentos quanto para motivação dos profissionais. Entre os países da OCDE, o índice é de 22%.
A média de idade dos professores brasileiros é de 42 anos, próxima dos países da OCDE, de 45 anos. No mundo, quase 90% dos professores se dizem satisfeitos com os seus empregos, no Brasil, são 87%.