
Parditude, marmitório e mi-mi-mi podem entrar no vocabulário oficial da língua portuguesa
Editora Planeta/Freepik/Reprodução/Redes sociais
Naquela cordelteca improvisada no fundo do marmitório, o enredista tentava organizar um debate sobre parditude em tempos de policrise, evitando o mi-mi-mi e apostando em ideias pesquisáveis.
As palavras destacadas em negrito na frase acima estão passando por um “processo seletivo” para ganhar uma vaga fixa no Vocabulário Oficial da Língua Portuguesa (Volp). Dependendo da decisão dos lexicógrafos da Academia Brasileira de Letras (ABL), elas podem ser incorporadas oficialmente ao idioma.
Em 2025, por exemplo, “pejotização” (prática de contratar um trabalhador como pessoa jurídica) e “terrir” (gênero de filme ou obra que mistura terror e humor) estavam na disputa e foram aprovadas com sucesso.
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🤔O que significam?
cordelteca: coleção, acervo ou espaço dedicado à guarda e divulgação de literatura de cordel.
marmitório: local de refeição simples, geralmente associado a trabalhadores que levam marmita, ou espaço de venda desses pratos prontos.
enredista: pessoa que cria enredos, especialmente para narrativas, peças, novelas ou desfiles (como no Carnaval).
parditude: condição, identidade ou conjunto de características associadas a pessoas pardas; termo ligado a discussões raciais no Brasil.
policrise: situação em que múltiplas crises (econômica, social, ambiental etc.) ocorrem simultaneamente e se inter-relacionam.
mi-mi-mi: reclamação considerada excessiva ou repetitiva; choramingo.
pesquisável: que pode ser pesquisado ou investigado.
📖O que é Volp?
É o documento oficial que estabelece qual é a grafia correta de cada palavra na norma padrão do português brasileiro. Ele tem força de lei.
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Ao contrário de dicionários como “Houaiss” e “Aurélio”, que são mais descritivos e que registram inclusive gírias para mostrar o “uso cotidiano da língua”, o Volp privilegia a forma culta. Nos resultados de busca, ele não mostra o significado do termo, e sim a forma certa de escrita, a flexão da palavra (o plural de couve-flor, por exemplo, ou um feminino irregular) e a classe gramatical dela (substantivo masculino, verbo etc.).
“O Volp não introduz uma palavra no léxico nem é um censor que autoriza ou não o ingresso de um termo na língua. Quem cria é o falante. O que o VOLP faz é registrar”, explicou Ricardo Cavalieri, da ABL, em entrevista ao g1 em 2025.
✏️Quais os critérios para que uma palavra entre no nosso vocabulário oficial?
Um termo que é só “modinha do momento” não pode entrar no Volp — é preciso haver estabilidade e continuidade de uso.
Podemos pensar, por exemplo, em “Inshalá”, que dominou as conversas em 2002, durante a transmissão de “O Clone”, na TV Globo, mas que caiu em desuso pouco tempo depois. Fez sentido não entrar no Volp.
Os principais critérios levados em conta pela comissão de lexicógrafos para incorporar um novo termo ao nosso vocabulário são os seguintes:
Ocorrência em textos escritos: a palavra precisa constar em materiais como reportagens, livros, artigos acadêmicos ou textos doutrinários. “Não basta circular apenas na oralidade, em redes ou em conversas digitais”, afirma Cavalieri.
Presença em pelo menos três gêneros textuais distintos: é necessário que o vocábulo apareça em registros diversos — como reportagens jornalísticas, artigos científicos, textos técnicos e obras literárias. Isso mostra que ele não está restrito a um grupo específico de pessoas.
Uso estável e uniforme: o termo deve apresentar “homogeneidade de sentido em diferentes contextos”, sem variações de significado. Um neologismo que seja entendido de forma diferente por cada um pode não estar ainda consolidado na língua.
Adaptação ortográfica, no caso de estrangeirismos: termos como “deletar”, aportuguesados, podem ser incorporados. Já aqueles que mantêm a grafia original, como “spin-off” e “bullying”, costumam ser registrados em um vocabulário específico de palavras estrangeiras, distinto do Volp.
⏳E quem está na ‘sala de espera’?
Para acompanhar essa dinâmica, a ABL mantém o Observatório Lexical, que funciona como uma “sala de espera”. Ali, determinados termos sugeridos por leitores ou por profissionais do Volp ficam no aguardo de uma decisão: são apenas um modismo ou estão sendo usados de forma estável?
Chegar à resposta é um processo complexo que envolve pesquisas textuais intensas tanto na internet quanto em obras digitalizadas nas bibliotecas. Também é comum receber contribuições de lexicógrafos de fora da ABL.
Não há um prazo estipulado para que a decisão seja tomada. Como explicou Cavalieri ao g1, “a própria palavra faz seu tempo. Cada termo tem sua história até se firmar”.
Covid-19, por exemplo, entrou no vocabulário oficial rapidamente, pelo uso massivo durante a pandemia.
Outras candidatas
Veja a lista com mais palavras que estão sendo analisadas pelos lexicógrafos no momento e descubra o significado de cada uma delas (além das já mencionadas no início da reportagem):
ordinarista: relativo ao cotidiano ou ao que é comum; também pode designar alguém que se ocupa de fatos ordinários.
preferencialista: que adota ou defende critérios de preferência; ligado a políticas ou práticas de prioridade.
reclínio: ato ou efeito de reclinar; posição inclinada ou de repouso.
refilável: que pode ser reabastecido (com refil), especialmente embalagens reutilizáveis.
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