Dados explicam por que, mesmo desgastado, Lula segue competitivo

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Há uma grande diferença entre um governo desgastado e um governo derrotado. Lula chega à pré-campanha de 2026 com rejeição alta, dificuldade para vender novas esperanças e claros sinais de fadiga na articulação política. Apesar disso, a oposição também enfrenta limitações que ajudam a entender por que a eleição continua imprevisível.

Uma das ilusões confortáveis dos opositores do governo é imaginar que o eleitor que escolheu um nome conservador no primeiro turno aceitará automaticamente qualquer outro nome da direita no segundo turno, contra Lula. Essa leitura confunde o comportamento dos grupos políticos com o comportamento do eleitor comum. Lideranças, partidos e influenciadores podem se alinhar por cálculo eleitoral. O eleitor, não necessariamente.

Lula em entrevista após reunião na Casa Branca nesta semana; presidente vai tentar a reeleição neste ano
Lula em entrevista após reunião na Casa Branca nesta semana; presidente vai tentar a reeleição neste ano

Os dados ajudam a elucidar o tabuleiro. Desde setembro de 2025, a AP Exata Inteligência coleta, diariamente, posts e comentários feitos nas redes sociais, a respeito dos presidenciáveis. Um volume que hoje já contabiliza cerca de 15 milhões de publicações.

São informações que permitem acompanhar o volume de menções a cada um dos nomes, emoções, narrativas e posicionamento dos principais atores políticos no ambiente digital. Permite também observar oscilações sobre a avaliação do governo, por meio de cálculos que levam em conta os resultados das pesquisas eleitorais e os sentimentos dos eleitores, expressados em suas publicações nas redes.

Portanto, na série de avaliação do governo registrada pela AP Exata, em setembro do ano passado o ruim/péssimo estava em 48,9%, enquanto o ótimo/bom marcava 25,8%. Em maio deste ano, o ruim/péssimo caiu para 43,8%, e o ótimo/bom subiu para 33,2%. O regular ficou em 23%. Uma redução de 5,1 pontos porcentuais na avaliação negativa e um aumento de 7,4 pontos na avaliação positiva.

Ou seja, em setembro o governo estava em situação muito mais frágil, depois recuperou parte do terreno perdido e agora entrou em uma zona de estabilidade. Essa melhora não veio apenas por mérito próprio do governo. Grande parte dela se explica pela crise aberta com a taxação de Donald Trump sobre produtos brasileiros, que permitiu a Lula ocupar o discurso de defesa nacional e colocou setores da direita bolsonarista em posição desconfortável, por apoiar ou relativizar uma medida vista como prejudicial ao Brasil.

No carnaval, houve um leve tumulto na curva, com a percepção negativa voltando à faixa de 45%, mas o movimento não se transformou em deterioração contínua. Depois disso, Lula estabilizou perto de 44% de ruim/péssimo e 33% de ótimo/bom.

O quadro está longe de ser confortável para o presidente, mas também não permite uma leitura de colapso. Há desgaste, mas há ainda uma base política relevante.

A AP Exata também analisou quais emoções apareceram com mais força nas publicações sobre cada presidenciável, nas últimas quatro semanas.

No indicador confiança, Caiado lidera com média de 19,4 pontos, seguido por Zema, com 18,4. Flávio Bolsonaro marca 16,9 e Lula aparece com 16,1. Renan Santos fica abaixo dos demais, com 15,5 pontos.

Já no indicador medo, Lula registra 17,9 pontos, o maior índice entre os nomes analisados. Flávio Bolsonaro também aparece em patamar elevado, com 16,1. Renan tem 16. Zema e Caiado ficam abaixo, com 14,5 pontos porcentuais.

Os números mostram que os nomes mais associados à confiança são Caiado e Zema, mas nenhum dos dois concentra a força identitária e emocional e eleitoral do bolsonarismo. Flávio mobiliza de forma mais ampla essa base conservadora, mas aparece próximo de Lula no indicador medo.

Além disso, há muitas divergências na oposição, pois ela se espalha em várias direitas diferentes. Há a direita bolsonarista de Flávio, a direita liberal de Zema, a antiga direita de Caiado, e a direita digital e antiestablishment de Renan Santos.

O caso de Flávio Bolsonaro é o mais delicado, pois concentra a principal contradição. Ele lidera entre os nomes da direita, porque foi nomeado herdeiro do legado político do pai, mas também carrega o desgaste da institucionalização desse movimento.

Jair Bolsonaro construiu sua imagem como adversário do sistema, mas Flávio aparece como alguém já acomodado às engrenagens de Brasília. A aproximação dele com lideranças e partidos do Centrão aumenta esse risco e, hoje, é um dos pontos mais frágeis do presidenciável.

A disputa, portanto, não será apenas entre Lula e a direita. Será também uma disputa entre diferentes versões de direita que tentam ocupar o lugar de alternativa ao PT, mas carregam contradições próprias. E, neste momento, todas gastam energia disputando espaço dentro do próprio campo.

Se a oposição seguir se desgastando em conflitos internos, poderá dar a Lula exatamente o que ele precisa neste momento. Não uma nova onda de grande popularidade, porque sua alta rejeição impede, mas sim a chance de se apresentar como a alternativa de menor risco, diante de um campo adversário que ainda não resolveu suas próprias contradições.

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